Reencontro com Meu Corpo! Movimento Possível

Livre reflexão do Prof. Maykell, sobre o corpo, a mente e as emoções: a linguagem poética é o elo entre as palavras e o movimento.

Reencontro com Meu Corpo! Movimento Possível

Dentre tantos no mundo, sou mais um!

Mas é meu corpo, não é qualquer um.

Aliás, corpo nenhum é qualquer um.

Corpo distanciado. Corpo resguardado, confinado. Quase não me reconheço.

Movimentos mínimos, contidos, respiração praticamente basal, a não ser em arrebatamentos momentâneos…

Quero sair! Mas não quero voltar para o mundo, para a vida do jeito que era antes. Luta incessante com meu corpo, entre corpos.

Nesses dias olho cada vez mais para dentro do meu corpo. Chegam-me reminiscências exteriores. Tenho saudades. De simplesmente andar, transitar entre outros corpos, de me esbarrar e me esticar para além de maçanetas e varais. Contorcer-me e ver por outros ângulos…

Como é bom sentir a respiração em seus ritmos diversos: prazer, cansaço bom, nostalgia… Sopros de vida. Bom sentir a energia que circula quando nos movimentamos. O calor do toque, do abraço. Carícias não bastam. Incrível energia vital! Movimento.

Corpo, meu próprio espaço. Sedento de outros.

Independentemente da circunstância, o que me impulsiona a ter ou não um modo de vida mais ativo corporalmente?

Sabemos que a “preguiça é um pecado capital”. E aludindo a um movimento básico que fazemos quase que automaticamente: “espreguiçar é muito bom”! É um movimento natural, faz bem, não só quando acordamos. Libera substâncias que proporcionam sensação de bem estar, além de outros benefícios como ativar a memória e dar mais disposição ao corpo.

Mas estamos sempre a conviver com uma questão existencial: somos movimento e cada vez mais nos deparamos com a insuficiência do mover-se corporalmente.

Propondo-nos um exercício, seria possível deixar o movimento livre, numa alegoria à expressão “pensamento livre”? A criança faz isso muitíssimo bem.

O pensamento ocidental dicotômico nos liberta ou nos aprisiona? Ao segmentar as partes do corpo em comando e execução (mente e corpo físico), limitamos ou expandimos nossas possibilidades de expressão corporal?

Mesmo dispondo de tantas simbologias, referências e formas mais técnicas ou não, o corpo ocidental ainda carece de movimento. Fortemente identificado com o corpo instrumental, se vê preso, condenado a um excesso de instrumentalidade e muitas vezes não se atenta às idiossincrasias do corpo “vivido” e corpo “objeto” (Whitehead, 2019).

Com nossos corpos impelidos a produzir, render cada vez mais e melhor, até mesmo no contexto da atividade física esportiva, praticamente não nos lançamos e sentimos a experiência da corporeidade em sua plenitude.

Mesmo depois de revelado tanto conhecimento sobre o movimento humano, muitos mistérios ainda permanecem. Independentemente das circunstâncias, o apropriar-se do corpo sempre será um desafio.

O bom de tudo isso é que são muitos os caminhos e inspirações a nos levar a um reencontro!                                                                     

Que a terra há de comer,

Mas não coma já.
Ainda se mova,

para o ofício e a posse.
E veja alguns sítios

antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de voo.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais…
(Carlos Drummond de Andrade)

“[…] o teatro e a dança nos lembram da potência dos nossos corpos”. E do risco de se passar uma vida sem conhecer as inúmeras possibilidades de carne, osso, veias, coração. O corpo no dia a dia passa oito horas sentado, tecla, gira o volante, dá sinal para o ônibus, deita para dormir. É feito instrumento de carregar nossa mente, de fazer trabalho e dinheiro, pagar contas.

Mas o corpo é muito mais do que isso e carece de ser. O corpo dança, sente

cócegas, rodopia. Com bom treino, o pé chega na cabeça, as mãos tocam o chão sem dobrar as pernas. O corpo anda quilômetros. Leva a gente rápido ou devagar.

Mas, para isso, ele necessita ser além de instrumento. O corpo tem que ser sem porquê…”

Parte do texto “O cajado-Brinquedo e o Corpo de Brincar”, de Carolina Bataier, uma caminhante do Sertão, extraído do livro “Diálogos do Ser-Tão: tecendo pegadas em finas tramas”, Org.: Elisa de Carvalho Espósito e Paulo Cezar Santos Ventura, Belo Horizonte, Editora Rolimã, 2019.

(citado no Caderno Jornada Vidas Ativas, CEPEUSP/Prodhe, IAS).

Maykell Aráujo Carvalho (educador CEPEUSP)

Referências Bibliográficas

Caderno Jornada Vidas Ativas. Orgs.: Angelo, L.F.; Silva, M.V.M; Carvalho, M.A.; Araújo, S.R.C. São Paulo: CEPEUSP/PRODHE, IAS, 2019.

Drummond de Andrade, C. Os últimos dias. Disponível em https://solangef.wordpress.com/2008/02/12/carlos-drummond-de-andrade-os-ultimos-dias/ (Seleta Poética). Acesso em 09.06.2020.

Whitehead, Margaret . Letramento Corporal: atividades Físicas e esportivas para toda a Vida. Organizadora, Margaret Whitehead; tradução: Leonardo Pinto Silva; revisão técnica: Luiz Eduardo Pinto Basto Tourinho Dantas, Edison de Jesus Manoel. Porto Alegre: Penso, 2019.

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