Caminhar e caminhada longa: qual o sentido?

Aproveitando o isolamento social, a professora Carolina Magalhães faz uma importante reflexão sobre o caminhar. Ela fala dos ganhos e significados dessa prática como exercício e vivência.

Foto: arquivo pessoal

            Andar é habilidade locomotora que quase todos alcançam por volta de um ano de vida. O corpo humano é estruturado para o movimento e certamente experimenta efeitos nocivos quando não se move. Nesse contexto, caminhar pode ser o primeiro passo (sem trocadilhos) para algum programa de condicionamento físico em academias e centros esportivos mundo afora. Daí, aumentar gradativa e agradavelmente em intensidade e frequência, torna-se uma clássica forma de melhorar o condicionamento físico aeróbio, caminhando, trotando e logo correndo. Andar de um cômodo a outro da casa, entre o elevador e o carro na garagem ou do escritório até o restaurante na hora do almoço é caminhar também. Leve, confortável, natural e acessível. Caminhar para melhorar fisicamente, caminhar utilitariamente deslocando-se pelo bairro ou caminhar por lazer são algumas dentre tantas possibilidades. O importante é caminhar.

                       Os efeitos da prática de exercícios físicos têm sido bastante estudados e estabelecidos. Chamamos de efeito agudo ou respostas fisiológicas, aqueles advindos de uma única sessão executada ou mesmo feito inesperadamente, como a elevação da frequência cardíaca. E conhecemos como crônicos, os efeitos acumulados no transcorrer da prática de exercícios físicos por algumas semanas ou meses. Um programa com várias sessões e estímulos sistematizados pode ter como resultado o aumento da força muscular, por exemplo.     

            Seja pelos efeitos agudos ou crônicos, o exercício físico é auxiliar no tratamento de males modernos e na melhora dos índices de saúde. Por exemplo, estudos mostram que a pressão arterial tem redução após uma única sessão de exercício, tanto para hipertensos como para normotensos. Já um programa de treinamento físico orientado aos hipertensos, com exercícios leves e moderados, aumenta os efeitos benéficos para eles. De maneira parecida, exercícios agudos e crônicos podem causar maior absorção de glicose pelas células tanto em indivíduos saudáveis como nos diabéticos. A grosso modo e até certo ponto, é como se os resultados fossem proporcionais à prática. Ainda, os exercícios atuam na secreção de insulina, adrenalina, serotonina, endorfina e tantos outros hormônios e neurotransmissores. Estes são importantes também ao bem-estar emocional e no lidar com desconfortos. Em suma, o exercício físico adequado pode trazer melhora e continuidade no funcionamento corporal, devido a sua regulação fisiológica, hormonal e neural. Como citam CANALI e KRUEL (2001), “os exercícios físicos provocam adaptações, tanto praticados de maneira crônica quanto aguda, de modo que o que antes era um dano ao corpo possa ser transformado em estímulo.”

Foto: arquivo pessoal

            É provável que percorrer a pé uma trilha, de um ou de poucos dias, traga somente efeitos agudos. A questão é: se não obtivermos os ganhos aeróbios de um programa mais longo de caminhada, será que valeria a pena percorrê-la mesmo assim? Algumas pessoas podem ainda alegar os desgastes e dores causadas pelo grande esforço sem hábito, carregando mochila, suor sob horas de sol ou chuva e quilômetros e quilômetros percorridos para sentir o corpo perto da exaustão. Tudo isso pode reforçar negativamente o desejo de uma próxima experiência. Há um abismo entre o sofá e a estrada empoeirada e outro entre essa experiência e o desejo de uma segunda aventura. Mas se caminhar pode ser tão desconfortável, por que alguns praticantes são tão apaixonados e continuam a se lançar em mais e mais caminhadas longas? Pode ser que para eles, caminhar tenha adquirido outro sentido.

Foto: arquivo pessoal

Autores da área de Humanas têm pesquisado sobre sentido e significado atribuídos pelas pessoas a fenômenos e experiências. LEONTIEV (2013) diz que sentido/significado (entendido como meaning) são representações mentais compartilhadas das possíveis ligações entre coisas, eventos e relacionamentos. Assim, meaning, é o que os conecta. Classificando em duas dimensões, pode-se entender sentido como a instância máxima integrativa da personalidade e significado, como os múltiplos elementos da conduta humana e processos mentais. Meaning continua sendo um desafio complexo para a psicologia mas de forma simplista, sugere mesmo conexão. Por exemplo, antropologicamente, significado pode ser entendido como o reforço de uma situação “aqui-agora” para uma outra, “vida-e-mundo”.

            CRUST et al (2011) ao estudar a experiência de seis caminhantes de longa distância, conduziram entrevistas de abordagem fenomenológica, baseadas numa primeira questão aberta: “Como foi/O que é percorrer a pé uma rota de longa distância?” Os resultados foram apurados por três pesquisadores convidados, familiarizados com método fenomenológico, mas não com caminhadas longas. Contextualizaram os temas e sentimentos relatados em períodos pré-caminhada, durante-caminhada e pós-caminhada. Em número de temas, a fase durante-caminhada pareceu a mais produtiva. Apesar de citarem pés, músculos e articulações doloridos, participantes também mencionaram “estar completamente absorvidos em caminhar”. Em dimensões gerais, os pesquisadores analisaram as citações como “encarar desafios” e “sentir-se em fluxo”. Já na fase pós-caminhada, destacando aqui citações diretamente relacionadas ao corpo, vemos sentimentos como “mentalmente e fisicamente melhor que nunca; sentir-se calmo e relaxado; sentir-se mais apto e com pernas doendo cada vez menos; sentir o corpo como máquina bem lubrificada e ter o corpo em harmonia perfeita”. Esses relatos foram agrupados pelos pesquisadores como:”sensação de bem-estar; ver a vida em perspectiva; confiança além-da-caminhada; sensação de alívio e autodescoberta”. Em resumo, “crescimento pessoal”.

            LARROSA BONDÍA (2002) ao falar sobre experiência, toma essa palavra em diferentes idiomas. Sugere ser a “experiência aquilo que nos passa, o que nos toca e o que nos acontece”, sendo necessário para isso uma certa passividade. Outro fundamento da experiência é sua capacidade de formação ou transformação. É comum ouvirmos em conversas com caminhantes que “após caminhar, voltamos diferentes para casa”.

Foto: arquivo pessoal

            Parece que todos teríamos motivos para caminhar, seja com frequência, num único domingo ou por alguns dias seguidos. É desejado que o significado percebido/sentido pela pessoa leve-a a buscar mais oportunidades de prática. Talvez o prazer, a contemplação, o desafio ou as memórias encontradas no percorrer de trilhas, caminhos e travessias façam com que o indivíduo queira reencontrá-los numa caminhada perto de casa, num parque ou academia. Além de benefícios para a vida geral, fisiologicamente com o repetir de sessões, o corpo só teria a ganhar. Caminhar é boa estratégia.

            E desejando inspirar você ir à janela ver o sol , um sopro na obra de Rebecca SOLNIT (2016), A História do Caminhar:

“Caminhar vem sendo uma constelação no céu estrelado da cultura humana, uma constelação de três estrelas: o corpo, a imaginação e o mundo, vasto e franco. Os campos e as ruas estão à espera.”

Logo que for seguro, experimente!

Abraço a todos, profa. Carolina

Foto: arquivo pessoal

Referências:

BRUM, P.C; FORJAZ, C. L. M.; TINUCCI, T. NEGRÃO, C. E.   Adaptações agudas e crônicas do exercício físico no sistema cardiovascular. Revista Paulista de Educação Física. São Paulo, v.18, p.21-31: ago. 2004.

CANALI, E.; KRUEL, L. F.   Respostas hormonais ao exercício. Revista Paulista de Educação Física. São Paulo, v. 15, n. 2, pp 141-153: dez. 2001.

CRUST, L; KEEGAN, R; PIGGOT, D; SWANN, C,   Walking the walk: A Phenomenological Study of Long Distance Walking. Journal of Applied Sport Psychology, 23:243-262 pp: 2011.

MELLO, M.T; BOSCOLO, R. A; ESTEVES, A. M; TUFIK, S.   O exercício físico e os aspectos biológicos. Revista Brasileira Medicina Esportiva, vol 11, n.3, pp.203-207: 2005.

LARROSA BONDÍA, J.   Notas sobre a experiência e o saber da experiência. in: Seminário Internacional de Educação de Campinas. Julho/2001. Conferência. Publicado em Revista Brasileira de Educação, n. 19 jan/abr, pp. 20-28: 2002.

LEONTIEV, D.   Personal Meaning: a challenge for psicology. The Journal of Positive Psychology, 8(6), pp. 459-470: 2013.

SOLNIT, R.   A História do Caminhar. trad. Maria do Carmo Zanini. Martins Fontes, 2016. pp.9-35, 137-175 e 247-280.

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